Um olho na fechadura
Ela chora amargamente entre quatro paredes, se olha no espelho não encarando seu rosto mas o tempo que passou e a deixou pra trás.A testa gelada do contato com o ladrilho dói a cabeça e lagrimas oceânicas se alojam debaixo de seus pés.
Não cabe a mim dizer o motivo das lagrimas ou a dor na alma daquela menina-mesmo porque um coração banal jamais entenderia-, minha função é somente ser um olho na fechadura e registrar um pranto sincero e inacabado.
Mudo o foco dos meus olhos para encontrá-la agachada, enrolada não mais em um corpo e sim em trapos, abraçando a si mesma, chorando alto e pra dentro na ironia louca que isso sugere.Não era infelicidade, no entanto, também não era alegria, acho que era arrependimento e mãos carentes atadas...sim, desconsolo.
E tinha um ralo naquele espaço, os dois se aproximavam vagarosamente, quase que desejando a companhia um do outro. Água salgada já inundava metros e metros, bolhas de ar subiam a superfície menos constantes e mais depressa.
Foi então, e foi rápido, que aquele buraco ignorado sugou...sugou a garota com ímpeto.Sonhava ela na infância um sonho que se repetia com freqüência nos meses, era uma piscina muito azul com os raios solares criando figuras geométricas na superfície e nela ela nadava calmamente até que o ralo daquela imensidão também a sugava e ela se via sozinha num mundo de sereias e monstros.
“Não, não me deixa ir!Eu quero subir, respirar...pirar...ar.”Respondi que nada podia fazer, sou eu somente uma observadora na fechadura, lembra!? Perdoe-me, enfatizei, quem sabe dessa vez o mundo que te espera não é aquele dos seus sonhos infantis.
Ela se foi assim.
Desejo, e desejaria isso para qualquer outra pessoa, é que o ralo a tenha levado para o lugar daqueles pesadelos de outrora, pois qualquer mundo real é pior, é mais amargo e cruel do que os criados pelo nosso subconsciente.