domingo, 23 de maio de 2010

O que não deveria ter sido dito



Ei você, até quando durará esta parada?
Tic-tac, expira um sussurro: pra sempre
Tic-tac, bate o meio dia, queima o sol quente
Tic-tac, você em outro continente
Tic-tac, chocam-se ombros arrastam-se malas
Tic-tac, brisa mal cheirosa recorrente de nórdicas valas
Tic-tac, vomito estas ultimas palavras: te amo pra dentro e calada
Te amo no nada e enfeitiçada
Te amo em parte amaldiçoada
Te amo confusa e angustiada
Te amo loucamente apaixonada
Te amo pro infinito e transtornada
Te amo por cima e ritmado
Te amo mesmo quando me deixa de lado
Te amo com medo do inesperado
Te amo no clichê de corpo e alma
Te amo e sinto sua falta
Tic-tac, tic-tac, tic-tac
Até quando durará esta parada?

A sua espera

‘té que o infinito de nós dois se acomode nesta linha do tempo imaginaria
‘té o dia em que sentir se torne o sentido primordial desta memória
‘té que este pouco de poeira siga seu rumo sem discórdia

‘té que teus pêlos não assumam mais desvairados os meus dedos
‘té o segundo que esta sombra em minha nuca não faça parte dos meus medos
‘té que restem só mais estúpidas quatro sílabas para serem ditas
Então partirá o trem dispensando qualquer outra despedida

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Doença Crônica

Não sinto cheiro
É esta a minha doença
Anonimato no teu apego
Descrença nessa sua crença
Ódio devasso [...]
Sua pele macilenta e flácida reage com minha existência ácida

Segurança na distância imposta
Ardência na espera de uma futura proposta
Eu encolhida nessa viga que já fora vida
Umidade, tato molhado fios regados
Zumbido dentro, zumbido fora
Vai e volta, sobe e desce, ri e chora
Então chove, chove, chove

Não sinto cheiro
Vou ao médico: “nem remédio há que lhe receite, conte até três e aceite”
Nascer em outro tempo, ter vivido meio herói meio cangaceiro
Numa fatia arrogante de deleite

Interrogo aos céus, mar ou a qualquer coisa que escutar primeiro
Posso eu sentir o seu cheiro?

domingo, 9 de maio de 2010

Sonoridade Forasteira

E de manhã ziguezagueando
Indo longe pra Amsterdã
Sendo tolo fugindo amando
Insano correndo andando
Partiu privado de sua fatia o amanhã

E a tarde ziguezagueando
Volta voltando sozinho
Corroendo de encanto e carinho
Que sobram dois em um juntinho
Cosendo vil cantos secretos
Nascendo mil sussurros discretos

E de noitinha... zigue, ziguezague, ziguezagueando
Foi-lhe encolhendo feito feto
Virou menino sem teto
Virou criança sem mãe
E donzela sem afeto

Lá ao longe então se vai, uma bolsa e mãos vazias, sem rumo pelo mundo
Aquele partido taciturno com seu fardo parte alma acorrentado
Assoviando melodias em tom calado
Em seu ziguezagueado ritmado

terça-feira, 4 de maio de 2010

Pesadelo

Não desdenhe
Nem ria-se da menina
Posto ser tão ingênua e mal tratada
Seus cabelos uma fachada
Seu olhar uma fantasia imaculada
E seu sorriso, ah seu sorriso, mentiroso e incapaz de expressar uma pérola de alegria

Não tortures a pobre criança
Nem gires ao seu redor como o sol o faz com a Terra
Pois seu desespero já se alastra
E seu corpo treme a agonia
Vejo seus lábios sussurrarem gritando, implorando, que a deixe sozinha
Contorcem-se seus dedos soltos pelo ar
Abate-se a vida ofegante de lutar

[...]

Findou-se o fôlego
Morte num silêncio amargo
Tristeza regada pela aspereza de lágrimas
Eis ai seu asqueroso fardo

segunda-feira, 3 de maio de 2010

Desabafo vindo de uma gaiola

Mórbida enclausurada em paredes de ferro

O que fere e destrói a vida que bate no centro é saber o quanto em vão o foi debater-me

Por este corpo temporário encravaram-se hematomas e unhas continuamente a corroer-me

Não pude deter a própria ação dos teus e meus movimentos


Foi tão mordaz de forma que nem os mais cândidos ungüentos me livram destes intrépidos pensamentos

São inexistentes as sombras devaneadas por estas pupilas

A escoria deixada em meus traços, no entanto, tão longe de ser sombra distante de ser sonho

E então por segundos mínimos e sutis imagino tudo lindo

Imóvel, em transe, me invoca o que de fato é a verdade

Sou um pássaro com asas cortadas e olhos sangrentos, e quando vejo, vejo em parte: vejo o carmim sobre a realidade

domingo, 2 de maio de 2010

Escambo



E...da pra negociar?

Te ofereço um beijo a mais

E você me fica devendo duas palavras

Te ofereço um pôr do sol e gaivotas no cais

E você me cobra o que deixei de sonhar


E...da pra negociar?

Te ofereço além do objeto

E você se contrai e retrai

Te ofereço o vai e vem

E você só vai

E...da pra negociar?

Ofereça-me um pouco além

Um conto, dois contos, um trem

Bocado disto que retêm

E a caridade do seu sorriso meu bem

-Não, não da pra negociar.