domingo, 25 de julho de 2010

Reflexos

Abriu os olhos mas não deixou o mundo que estava por trás de suas íris se dissipar, nele ela sorveu as lembranças como se fosse a ultima vez que o fizesse, no entanto, a moça sem nome tinha consciência do retorno para o local nos séculos subseqüentes.

Plantou seus pés no chão e repassou mentalmente todos os sinônimos para início que tinha conhecimento “era uma vez, começo, principio...” nenhum deles se adequava senão um único que palpitava em suas mãos: “fim”.

Fim - a água escorria pelo seu rosto alvo- não havia melhor termo que este, como em flashes surgiram beijos, sorrisos, olhares... Pequenas coisas secretas que enraizaram uma sensação de ser mulher tão grande e inexplicável que nem a ausência de empatia conseguia mudar isso.

Então a moça ou mulher ou o que for de sua preferência correu, correu desesperadamente, até que se chocou em você. Sua estatura excedia a dela, seus ombros eram mais largos, seus lábios mais atrativos e sua imponência... Gigantesca.

Seguindo a lei da ação e reação ela se sentiu pequena, ela se sentiu, talvez, da forma que realmente fosse: uma criança sem colo. E como por consentimento alheio seu nome foi proferido e a moça, agora com nome, via o desvendar de um início dentro dela.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Fios Trançados

Tranço tranças teimosas

Destranço e retranço cotidianamente

Vez ou outra ficam até que bem mimosas

Mas no geral são emaranhados simplesmente


Fico mais bonita assim?

Com trancinhas em mim...

Meus dedos doem pelo trabalho imaculado

Você não acredita que em algum dia eu tenha sido imaculada

Você fez o meu penteado inacabado


São tão infantis as minhas tranças

Faíscam como prisioneiras crianças

Bate em meu seio o que um dia eu chamei de esperança

Hoje, o que bate, bate magoando

Desamparando

Torturando


Entrelaçou-me o cabelo

Selou no meu eu o que diriam se chamar ambivalência

Escondo meu desejo com zelo

Segredando-o aos meus ouvidos com consciência

Porque as tranças já foram trançadas

E agora eu só busco nas suas tranças uma única trança

Ambivalência me resumi quando o assunto é você.

domingo, 18 de julho de 2010

Julgamento

Tem perdão para a paixão?

Não deveria ter, jamais

Vem de mansinho e usurpa do seu corpo e paz

Prisão perpétua, cadeira elétrica, enforcamento e todo o mais...

Pois bem, não merece ela uma pior execução?

Se ele soubesse (04/2009)

Ah, se ele soubesse

Que como sopro do vento

Sinto-o aproximar-se em todo momento

E que no segredo do meu pensamento

Danço suas melodias no âmago do desalento

Ah, se ele soubesse

Que na amargura me entrego

E que para mim mesma eu nego

A sensação de olhar e querer

E a derrota de não poder ter

Ah, se ele soubesse

Que dos lábios dele meus lábios carecem

Que da falta de sua voz minha mente perece

E na certeza da incerteza minhas barreiras descressem

Ah, se ele soubesse

O quanto me sinto perdida

E a intensidade com que seu sorriso complicou minha vida

Tornando-me sonhadora de inverdades

E amante da vontade

Ah, se ele soubesse...

sábado, 10 de julho de 2010

A morte de uma amante


Eis ai minha lápide cinza e sua figura imponente em silêncio
Seus olhos mal chegam a estar marejados
Foi só mais uma você pensa
Seus pés, num chão há pouco mexido, doam segundos minguados
De repente a sua frente um quarto e breves lembranças embaçadas
Então um leve movimento de cabeça - o vento bagunça seus cabelos -
Começa a incomodar a ponta de seus dedos gelados
O desconforto do lugar parece agora mais aparente
Você escuta: melodia de pétalas caindo
São as pétalas de uma flor do campo qualquer jogadas por suas próprias mãos
Mais um segundo e há a reflexão de que vermelha não fora a cor ideal:um simples rosa combinava mais com meu jeito
Pisca uma, duas vezes-seu modo de se despedir-
Virou devagar oferecendo a imagem de seu ombro encasacado
Foi só mais uma você pensa
E eu, daqui de baixo, grito com todo fôlego de vida que me foi negado
(Mas um pouco e eu teria amado)

quinta-feira, 8 de julho de 2010

sem título

Era tão bom...

Quando o nada me satisfazia fugaz

E teus olhos eram corriqueiros e banais

Quando um dia se seguia ao outro sem nada demais

A distância consistia no desejo e razão sendo rivais

Foi tão bom

Quando eu distorcia a verdade sem culpa

Recorrendo ao teu descaso velado

Seus beijos, então, me cegavam e selavam o agregado

Em que agora tenho afundado

É tão bom...

Quando você me acolhe em teu abraço

E sinto sua respiração no mais sutil tom

Meu rosto se molda na sua nuca, disfarço

Teu limite é a linha que eu amargo

Seria tão bom...

Se Picasso nos tivesse desenhando lado a lado

E qualquer momento aleatório fosse assim eternizado

Já que o tempo corre desvairado, esquecendo o inacabado

Restando este amontoado de desejos privados

Será tão bom...

Quando eu não for mais essa boba

Escrevendo rimas loucas

Focada em sua teia fosca

Sendo zombada por essa vida tosca

O que é bom sem o teu passado junto ao meu presente acompanhando qualquer lembrança de um futuro deserto?