domingo, 22 de agosto de 2010

Um olho na fechadura

Um olho na fechadura

Ela chora amargamente entre quatro paredes, se olha no espelho não encarando seu rosto mas o tempo que passou e a deixou pra trás.A testa gelada do contato com o ladrilho dói a cabeça e lagrimas oceânicas se alojam debaixo de seus pés.

Não cabe a mim dizer o motivo das lagrimas ou a dor na alma daquela menina-mesmo porque um coração banal jamais entenderia-, minha função é somente ser um olho na fechadura e registrar um pranto sincero e inacabado.

Mudo o foco dos meus olhos para encontrá-la agachada, enrolada não mais em um corpo e sim em trapos, abraçando a si mesma, chorando alto e pra dentro na ironia louca que isso sugere.Não era infelicidade, no entanto, também não era alegria, acho que era arrependimento e mãos carentes atadas...sim, desconsolo.

E tinha um ralo naquele espaço, os dois se aproximavam vagarosamente, quase que desejando a companhia um do outro. Água salgada já inundava metros e metros, bolhas de ar subiam a superfície menos constantes e mais depressa.

Foi então, e foi rápido, que aquele buraco ignorado sugou...sugou a garota com ímpeto.Sonhava ela na infância um sonho que se repetia com freqüência nos meses, era uma piscina muito azul com os raios solares criando figuras geométricas na superfície e nela ela nadava calmamente até que o ralo daquela imensidão também a sugava e ela se via sozinha num mundo de sereias e monstros.

“Não, não me deixa ir!Eu quero subir, respirar...pirar...ar.”Respondi que nada podia fazer, sou eu somente uma observadora na fechadura, lembra!? Perdoe-me, enfatizei, quem sabe dessa vez o mundo que te espera não é aquele dos seus sonhos infantis.

Ela se foi assim.

Desejo, e desejaria isso para qualquer outra pessoa, é que o ralo a tenha levado para o lugar daqueles pesadelos de outrora, pois qualquer mundo real é pior, é mais amargo e cruel do que os criados pelo nosso subconsciente.

quinta-feira, 19 de agosto de 2010

O pranto 23/09/2007

E nisso

Ela vai

E nessa hora

Ela canta

E nada mais a encanta

Quanto o compasso do seu passo

Sorrateiro, definido

Esconderijo de um longo pranto

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Minha Fábula

Você me iludiu

Não, eu me iludi

Iludi-me porque a ilusão parecia perfeição

Finjo agora que me iludo de brincadeira

Já que aludir à realidade em nada vale de qualquer maneira

Então que todos se iludam... Ou não

Queria eu ter a fantasia e o chão

Mas me faltam os dois e mais uma beira

O que me falta sobra

E o que te falta também em mim sobra

Ainda tenho pele e ela sente o frio cortante que sopra

Então cá estou eu na ilusão

Pois ela, de fato, é minha melhor ocupação

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Anestésico

Não sei o que sou

Sou mais imunda

Sou menos conforme

Sou mais múmia e disforme


Sei o que você é

Você é indiferença

Você é atração

Você é só esse sorriso bobo com um decréscimo de afeição


Somos nada

Você é meu tudo

Encurralada.

Diga de novo a mesma sílaba vexada

Pois me sinto anestesiada

domingo, 25 de julho de 2010

Reflexos

Abriu os olhos mas não deixou o mundo que estava por trás de suas íris se dissipar, nele ela sorveu as lembranças como se fosse a ultima vez que o fizesse, no entanto, a moça sem nome tinha consciência do retorno para o local nos séculos subseqüentes.

Plantou seus pés no chão e repassou mentalmente todos os sinônimos para início que tinha conhecimento “era uma vez, começo, principio...” nenhum deles se adequava senão um único que palpitava em suas mãos: “fim”.

Fim - a água escorria pelo seu rosto alvo- não havia melhor termo que este, como em flashes surgiram beijos, sorrisos, olhares... Pequenas coisas secretas que enraizaram uma sensação de ser mulher tão grande e inexplicável que nem a ausência de empatia conseguia mudar isso.

Então a moça ou mulher ou o que for de sua preferência correu, correu desesperadamente, até que se chocou em você. Sua estatura excedia a dela, seus ombros eram mais largos, seus lábios mais atrativos e sua imponência... Gigantesca.

Seguindo a lei da ação e reação ela se sentiu pequena, ela se sentiu, talvez, da forma que realmente fosse: uma criança sem colo. E como por consentimento alheio seu nome foi proferido e a moça, agora com nome, via o desvendar de um início dentro dela.

terça-feira, 20 de julho de 2010

Fios Trançados

Tranço tranças teimosas

Destranço e retranço cotidianamente

Vez ou outra ficam até que bem mimosas

Mas no geral são emaranhados simplesmente


Fico mais bonita assim?

Com trancinhas em mim...

Meus dedos doem pelo trabalho imaculado

Você não acredita que em algum dia eu tenha sido imaculada

Você fez o meu penteado inacabado


São tão infantis as minhas tranças

Faíscam como prisioneiras crianças

Bate em meu seio o que um dia eu chamei de esperança

Hoje, o que bate, bate magoando

Desamparando

Torturando


Entrelaçou-me o cabelo

Selou no meu eu o que diriam se chamar ambivalência

Escondo meu desejo com zelo

Segredando-o aos meus ouvidos com consciência

Porque as tranças já foram trançadas

E agora eu só busco nas suas tranças uma única trança

Ambivalência me resumi quando o assunto é você.